quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Expurgo 25

Tava a fim de fazer nada, mas eu tinha parentes afins. Esse lance de consanguinidade às vezes não presta pra nada, melhor seria ter tido eu a sorte de ter algum parentesco com o brilho das estrelas ou com uma bela lua, toda redonda e posuda, derramando leite e mel em noite de noite estrelada. Fazer o quê! Sempre detestei fazer barba, embora nunca gostasse de me ver barbudo, nem mesmo quando era apenas um gurizinho. A vida é assim e assado, cabra macho não chora, mas se sensibliza como uma pedra ao deparar-se com notícias do tipo "celebridades vão ao Programa do Faustão".
Hoje eu fui não fui na Loja do meu amigo. O meu amigo vende velas e imagens de santo e diz que é parente do Barão de Coromandel. Coitado do meu amigo, anda mal das pernas e sempre bem de orgulho, sua loja anda mais vazia que boca de banguela e, no entanto, ele só anda com o peito estufado. Não dá pra entender o meu amigo, ele trabalha com artigos religiosos e vive a falar de política, fica antenado em tudo o que diz o Datena na TV, diz que quando jovem fora da TFP, que esse mundo está perdido e que toda mulher que pinta as unhas é uma péssima esposa e dona de casa. Sei lá. Desconfio. Mas, no fundo, acho que mesmo assim, o meu amigo é o único parente que me restou, com ele fico horas e horas a falar... melhor é concordar com tudo o que ele diz. Claro que não me meto a falar de estrelas e lua com ele, pois meu amigo diz que poesia é coisa de maricas. Eu que não trate mão de abrir mão da minha desconfiança! não é fácil, afinal, encontrar um amigo hoje em dia. Sim, um amigo que gosta de cheirar rapé, tem um bigodinho esperto, uma Brasília branca caindo aos pedaços e de que cujo sangue corre sangue do Barão de Coromandel.

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