quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Expurgo 24

A casa estava aberta. Fechei-me. A vida seguia, a casa estava como um burro que se empaca em manhãs de carnaval num deserto de sentimentos congelados pelo frio que percorria os campos de futebol e dizia aos quatrocentos e quatorze ventos que tudo ia melhorar, bastava apenas tomar Melhoral e dormir um pouco. Tia Margarida disse que era gripe e me deu um pontapé no traseiro. Quis me vingar. Acabei trazendo algodão doce para ela. Verdade que já me acostumei com as maluquices de tia Margarida. Penso refletindo, mas poderia pensar não pensando em nada, apenas observando pelo buraco da fechadura se minha prima Edith era mesmo aquele monumento de mulher. Nossa! E não é que era mesmo? Edite isso aí. Tentei reter aquele momento. Impossível. Alguém canta um pagode de terceira, como se existisse pagode de primeira, axé de primeira, carnaval e bossa-nova em Minas de primeira e, com isso, a gente acaba se esquecendo dela, não mais morrendo de amor e tesão por ela, ela, a prima Edith. Tentação quando bate não rebate, talvez eu vá pro nordeste, a vida por lá parece correr mais solta. Mas fico preso no Pelourinho. Melhor é ir para a Praça Sete. Melhor é demolir a Praça Sete ou levá-la para a Savassi como fizeram com o pirulito. Mas subo a Rua da Bahia. Poderia ter ido pela Espirito Santo, São Paulo, Rio de Janeiro... mas a Rua da Bahia guarda um certo mistério, tem mais carisma, deve ser por isso que vou pela mão e contra-mão da Rua da Bahia. Arrependo, não! Bobagem arrepender, perda de tempo. Nunca usei relógio de pulso. Mas um dia pego tia Margarida de jeito e lhe digo na cara: bandida! Edith, claro, não faço nada com ela, e mesmo se quisesse, nem pensar... o namorado dela dá dois de mim, eu que não me cuide! É melhor pensar em outras coisas, já que as outras coisas não vão pensar em mim. Claro que vou votar no Presidente Ninguém, no Senador Ninguém, no Deputado Federal Ninguém, no Deputado Estadual Ninguém. De mais a mais, que importância isso tem, já que também não sou ninguém. Mande um abraço e um beijo meu para ninguém. No mais, fique bem como ninguém.

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