sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Expurgo 23


Veramente vero. De razão estás coberta. A vida segue alucinante em opacas noites, atravessando verões cariocas, enchendo nossas cabeças de minhocas, num desbunde total e parcialmente imperceptível aos olhos dos meus óculos que há muito perderam a capacidade de vislumbar que no final do túnel a lamparina apagou, a Cemig não chegou, virou tudo um breu, faltou lupa, faltou grau. Chorei, embora nenhuma lágrima escorresse dos meus olhos azuis cor de castanha do Pará. Pensei em voltar para o Pará, embora só tenha ido ao Paraná uma única vez, onde conheci Teresa duante viagem. Amamos no banheiro do ônibus, enquanto os pinheirais do Paraná estavam abarrotados de sabiás que de nada sabiam, apenas corujavam o chacolhar do meu corpo e o da Teresa, ali, tudo meio que desajeitado, feito às pressas. Mas toda viagem tem seu fim. O marido da Teresa estava esperando por ela na Rodoviária. Acho que fui para o bairro Santa Felicidade, entupi-me de vinho cubano, pensando que fosse italiano. Depois procurei por meu amigo de escola, dormi na casa dele... meu amigo até que não mudou muito, mas a esposa dele não gostou da minha visita inesperada. Era esperado... não disse nada. Foi aí que percebi que quem manda é a mulher, sempre a mulher, a amizade acaba quando o amigo se casa. No outro dia, arrumei minhas coisas, despedi-me rapidamente, a esposa do meu amigo disse o maior "vai não" com a maior vontade que eu fosse, e foi isso mesmo que eu fiz, fui, ou melhor, voltei para BH, pensando em ir para Bahia comer acarajé, conhecer a Baixa do Sapateiro, a praça Castro Alves, o Mercado Modelo, cantar Caymi, ficar uns tempos na praia de Amaralina tomando água de coco e batalhando para ver se conseguia ver o que a baiana tem. Pior é que me apareceu uma gringa na viagem, era belga ela, viagem longa, um dia e meio dentro do ônibus. A belga até que não era de se jogar fora, mas quando notei que ela não cortava os cabelos das axilas, sério, perdi o desejo (naquela época niguém dizia tesão). Ao chegar a Salvador, dei um jeito de me desvencilhar da gringa mas, por infelicidade, ele foi parar no mesmo hotel que me hospedei, em logo na praia de Amaralina. Dei um jeito, fui para Itapoã. Descansei um pouco, botei meu calção e fui direto para o mar. E foi na praia de Itapoã que conheci Ivete, não a cantora, mas uma mulata de traseiro avantajado, rico, imponente, imperial, majestoso, ficamos amigos, depois namorados, mais um pouco depois íntimos, amantes. Foi Ivete que me mostrou Salvador inteira, a parte nova e a parte velha, através do Elevador Lacerda. Fui feliz na Bahia, vi o que a baiana Ivete tinha. Mineiramente, arrumei minha mala quando notei que o bicho podia pegar quando ela me convidou para conhecer seus pais, e me mandei o mais rápido que pude para BH. Chegando em BH, como a grana já estava curta, fui andar de barco no lago do Parque Municipal, jogar pipoca aos peixes e comer pastel murcho em algum botequim da Praça da Estação. Vida a levar...

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