É uma temeridade em morenas tardes de augustos verões achar-se perdido e completamente intacto, desvidraçado e oco, ainda que num indistinto eco que retrocede a tempos memoráveis e esquecidos em nosso intransponível 'eu' jornalístico em que notícias vindas de mar além apontam para horizontes novos, colhidos de véspera no quintal da tia Margarida, que de flor não tem nada, melhor calharia caso se chamasse tia Arnica. Como nem tudo é o que parece ser, cubro-me de pensamentos que me agasalham em pleno inverno do sul da América, fazendo-me sentir desprovido de sentimentos, o que me dá uma tremenda sensação de estar tremendamente tremendo. Vasculho-me todo, bolsos, narinas, pernas, calcanhares, boca, unhas e... nada! Não sei bem, pode ser que minhas penas, minhas esfereográficas e, agora, essas teclas tenham deixado marcas profundas em meu raso pensar, deixando-me na superfície do fundo do fundo, querendo sorrir e preferindo viver morrendo para renascer morto, insuportável e chato. Tento pensar em outras estações, mergulho-me na primavera, farto-me de folhas e flores e desabrocho-me no outono escutando Milles Davis e jogando sinuca no bar do Gabiroba. Vida a levar... caracteres rondam na redação, há que se vender o produto, há que se ter ética mesmo sabendo que anunciar vinhos pode levar uma pessoa a ter cirrose ou a dirigir embriagada e correr o risco de atropelar tia Margarida, que mesmo não sendo ela lá muito agradável, pois nunca teve nenhum parentesco com a brisa do mar e com o brilho das estrelas, culpa nenhuma teria ela certamente. A culpa seria do senhor que se embriagou ou dos anúncios de bebida? Talvez eu pensasse na exclamativa alguma coisa do tipo "bem feito!", mas é evidente que logo, logo a minha consciência iria doer, estando eu consciente disso ou não. Mas bebo-me em palavras, rasgo o verbo e conjugo-me mal, tão mal, que chego a passar bem mal. Talvez eu precise de um pronome pessoal do caso reto, não posso viver obliquamente, é osso duro de roer essa de viver de esguelha, de través, de soslaio, de quina. É ferro. Por fim, Milles Davis fecha-se em copas, não ouço mais nada, a última bola cai na caçapa, o jogo termina, o bar do Gabiroroba fecha as portas, vou para a rua e morro atropelado ao atravessar a rua, já vendo em seguida, no meu velório, tia Margarida chorando rios, fingindo mares e naufragando em terra firme. Enquanto isso, fico me perguntando se anunciaram a minha morte em algum jornal. Mas que o Cruzeiro de Tostão foi mais time que o Santos de Pelé foi, foi. Tostão, o único jogador inteligente que já jogou bola. Pelé, Garrincha, Maradona, Zico, todos esses jogavam por "intuição", Tostão foi o único que jogou com "inteligência". Tá bão? O que não deixa a coisa rolar numa boa é o eixo Rio-Sampa, que é pura ganância, jogo de abafa e garganta.

0 comentários:
Postar um comentário