Vamos ver o que está rolando. Pulgas atrás da orelha, um certo vazio combinado com um tremendo saco cheio de tudo e de todos com doces lembranças paraguaias no infindável mar de lamaçal de finitas botas que pisavam em flores, machucavam os calcanhares de Olga, que sempre me surpreendeu com aqueles olhos esbugalhados e aquele sorriso falso, embora fossem naturais os dentes do elefante que nem dente possuem ou, pelo menos, que eu saiba; nunca fui dado mesmo a elefantes, quem diria de girafas! Mas acho que as girafas são animais de uma dignidade de dar inveja aos pavões. Aquilo sim é que é um bicho digno. Acho que só falta colocar gravata nelas. Mas aí elas iriam entrar pra política, perderiam toda aquela elegância e suavidade que Deus a elas deu. Entrou na política, a coisa desanda, você tem que abrir concessões. É melhor cantar Conceição, eu me lembro muito bem, vivias no morro a sonhar com coisas que o morro não tem. Mas foi aí que apareceu um barulhinho vindo não sei de onde, talvez do CPU do meu micro, pensei chips e deixei meus dedos vagabundearem pelo teclado no afã de um dia encontrar Margarida é dizer-lhe na cara dura “fingida, falsa, bandida!”. Mas pra quê criar confusão, todo mundo já anda matando cachorro a grito, os corações humanos estão sempre em conflito daí o apito do infarto que eu nunca soube se o correto é escrever enfarto ou enfarte. Em todo caso, esse lance gramatical de estar sempre preocupado se está virgulando corretamente, se os verbos estão sendo conjugados adequadamente, embora, no passado, isso me inibisse de escrever, agora eu quero que isso tudo vá pro pequêpê. Adoro a minha língua. E se eu a adoro, ela certamente não vai me deixar na mão, será generosa comigo. Medo de quê? De se parecer ridículo? Ridículo é ser o que não é, ficar fazendo pose. Tem certas pessoas que tenho pena delas, confesso. São pessoas carentes. Sei lá, parecem que não querem aceitar as coisas como são. “Seja você!”, eu já disse. Mas parece que, sei lá, vivem com medo, ficam preocupadas com o que os outros estão pensando ou estão impregnadas de inveja. Nunca se sabe, sabe-se, no entanto, sabe-se sim. Aquela mulher que não me lembro o nome dela, ou me lembro perfeitamente, mas que não acho conveniente colocar o nome dela aqui, disse uma coisa que é certa: desejo de agradar. É, muita gente tem esse sentimento tão latente, tão fortemente arraigado que não se descansa um minuto sequer enquanto não faz algo com o intuito de agradar. Deveria agradar-se a si, primeiramente. Depois daí, tudo bem. E agradar-se não é se achar lindo, divino, maravilhoso. Agradar-se é procurar se sentir bem, só isso. Taí a sacada: procurar se sentir bem. E isso não vem de fora, vem de dentro. Cada um encontra o seu jeito. Meditação é uma saída. Medite. Fazer poesia é outra. Faça poesia. Cantar, mais uma. Cante. O que não dá é sair por aí enchendo a cara, bebendo. Ou ficar como aqueles torcedores fanáticos de time de futebol. Aí, você tá é apelando, perdendo seu tempo, jogando sua vida fora. Leia um livro, meu cara. Vá devagar, mastigue as palavras. O problema é sexo? Sexualize-se. Não tem ninguém no pedaço? Descasque uma banana, se for homem; pra mulher, tem o consolo da viúva, disso eu não entendo muito bem, já ouvi apenas falar; acho que tem um com motorzinho giratório e tudo. Amor, então? O que tem de amor falso por aí não tá nas cartas geográficas, é só dar uma volta no quarteirão que tem sempre um de prontidão lhe esperando. Amor verdadeiro, meu chapa, isso é papo pra Ghandi, Madre Tereza e alguns anônimos. Grana, cacau, bufunfa, l'argent, dindin, money? É isso? Cara, se você quer projeção social, então, bicho, largue essa de meditar, de ficar por aí cantando, pare de fazer poesia, jogue toda a sua projeção interior pro fundo do mar ou no lixo, arrume um terno legal, comece a ler esses livros de auto-ajuda, prepare-se para agradar a gregos e a troianos, jogue pra bem longe todos seus princípios morais, o pessoal da grana gosta de gente que impressiona e puxe o saco com força, seja um baita puxa-saco profissional que você se enrica pra valer. Qual é a sua, meu camarada? Meu negócio é contentar-se com pouco. Se você é exigente com a vida, saiba que ela será com você também. E ficamos por aqui, porque já vi que tá rolando merda.

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