quarta-feira, 5 de maio de 2010

Expurgo 14

Já é hora de planejar uma viagem para Nova Zelândia sem grana alguma, escutar um pouco Paco de Lucía, observar os cães descerem suavemente a rua Das Quintas; Nossa Senhora, onde está minha cabeça?, digo cada coisa, que o pessoal deve me achar maluco, com um parafuso a menos, se ao menos eu fosse feliz poderia dar umas boas gargalhadas e preocupar menos com que cueca que irei trabalhar na segunda-feira. Acho que todas são da mesma cor, fica difícil saber... mas pensando bem, eu tenho cuecas azuis, cinzas, acho até que duas são brancas. Nada demais, só o suficiente. Sou meio gandhiniano na maneira de pensar. Gandhi grudou na minha cabeça, decapitou um pouco meu lado ocidental ao dizer que quem tem mais do que necessita é um ladrão. Sério, pouca coisa me impressionou mais na vida que essa frase dita por aquele homenzinho, magrinho, banguela, que usava óculos de aro redondo. Tou com a imagem dele agora na minha cabeça. Ele tem a manha. Enquanto isso, vejo uma quantidade considerável de pôsteres de guitarristas fazendo pose que estão tocando, dando a impressão de que tem a manha. Quem tem a manha é Gandhi. Eu disse tem, porque ele não morreu, suas idéias estão aí para quem quiser ver. Já tentei passar isso para o meu filho, mas malogrei, acho que não tenho a manha do convencimento. Pelo menos, tentei. E tentar é um consolo, nunca uma realização. Mas deixa pra lá, muita coisa vai rolar. A gente tem que sobreviver. Não moro na Índia. Minha herança genética é de gente que quer grana, alguns são de uma avidez que deixa qualquer ser humano anormal mais anormal ainda. Meu filho, pelo menos, é comedido e sem frescura, encara um prato com arroz e feijão numa boa. No mais, fazer o quê? Charles Chaplin, de alguma forma, tinha algo de Gandhi e era ocidental, pensava em grana, apesar de ter inteligência e genialidade o suficiente para não ir ao matadouro feito a maioria de nós, pois deu-se bem com seus filmes mudos, mas ricos de significados e beleza. Enfim, fez o que gostava de fazer. E eu vou perder meu tempo falando de Lula e aquele partido da estrelinha, o Pra Quê, e aquela Martha Suplício, que sempre me pareceu cínica e mais burra que o cara que diz que a rua Direita fica sempre à esquerda, independente da direção que você venha? José Serra? Não, meu irmão. Prefiro conversar fiado com Pedrinho da Zica que trabalha numa serralheria que fica perto de onde moro. Falar de política, ah, ah, ah! Antes, era a ditadura militar; agora, é a ditadura civil. Sei, não. Desconfio. Acho que a inteligência nasce da dúvida. Aceitar as coisas assim, não caio nessa, não. Isso é balaio de gato, é alçapão para pegar passarinho, é golpe de João sem braço. Falar de política.... ah, ah, ah! Outra vez? Repetir cansa, pois fique eu sabendo! Eu não leio mais jornal, não assisto televisão, não ouço mais rádio. Tou ligado em bulas de remédio, revistas geográficas, livros do século passado, em fazer palavras cruzadas. Fico sabendo das coisas que tão pintando no momento presente pela boca do povo, através de colegas de trabalho, quando vou comprar pão na padaria, entre outras. Isso me basta; preciso mais, não; como diria o matuto do sertão de Floripa ou o surfista das Gerais: - não vou nessa, véi;. Falar de política... é tudo jogo de interesses. Assistir o programa da Bebe, o programa do Sinhô? Ler a SerVeja? Como? Como. Se a fruta é boa, como; se não presta, deixo pra lá. Eu vou é pra Nova Zelândia para ver se vejo algum pé de jabuticaba por lá... tá passando da hora.

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