terça-feira, 18 de maio de 2010

Expurgo 21


Minha vida tem formosas galerias que dão em frondosas avenidas com seus poéticos e bucólicos asfaltos onde eu sinto todo um charme que os meus cotovelos fazem quando vejo Shirley passando na mimosa e encantadora calçada da minha vida. Oh!, bela vida que me leva em meio a suaves buzinadas dos automóveis, esplendorosos camelôs anunciam em melodiosa voz os seus encantadores produtos: raridades do Paraguai. Sim, sinto o azul mais azul quando adentro o elevador, meu coração se enternece com suas paredes de aço. Oh!, quanta ternura vejo nos corredores que dão acesso ao consultório odontológico, com que delicadeza o dentista trata as minhas gengivas, raspa-as com carinho e zelo. Penso comigo: “sou um felizardo por poder ir ao meu periodontista”. Saio do consultório cheio de júbilo, cantarolo até canções de Julio Iglesias. Sabe, eu sou um sentimental nato. Enfim, estou eu aqui descendo o meu lindo e fascinante elevador de aço. Hora de voltar para a minha residência, morada dos deuses, meu paraíso, meu reino encantado. Atravesso duas ruas cheias de amor pra dar, e fico ali parado num silêncio angelical esperando o meu ônibus, razão da minha vida, chegar. Ele demora tão pouco para chegar: apenas uma hora contados com o aval do meu Omega do Paraguai. Ele chega divinamente lotado, sinto o calor humano, o perfume das mulheres e dos operários da minha querida e aristocrática zona norte, enquanto vou confortavelmente em pé ao lado dos meus adorados e estimados passageiros. Chego, enfim, ao meu palacete de 44 metros quadrados, depois de subir mais ou menos uns oitenta pomposos degraus. Ah, que bom chegar ao meu lar doce lar! Sento-me no meu aconchegante sofá que comprei em 80 suaves prestações nas Casas Bahia. Sou mesmo um sujeito de sorte! A minha adorada esposa deixa-me um gracioso recado: “esquente a comida que tive que sair”. Olho para o meu Omega e presumo que meu filho deve voltar da escola dentro de um quarto de hora. Estou só, mas felicíssimo, num superlativo festival de gratidão. Esquento o meu manjar e, minutos depois, degusto o meu arroz com feijão acompanhado de finíssimo macarrão. Hum! Delícia! Satisfeito o meu estômago, vou até ao WC, sinto-me um pouco americanizado do norte, e escovo os meus dentes usando a minha pasta dentes favorita “Colgate”; instintivamente, vou ao quarto do meu filho, ligo o computador, entro na rede mundial a uma velocidade espantosa de 56 kb/s e sinto-me como se fosse o rei do mundo. Meu filho chega, encontra o manjar no ponto e põe-se de pronto a se fartar. Resolvo desligar o computador e vou até a sala trocar alguma idéia com meu filho, enquanto ele almoça sério e calmamente. Não somos muito de falar, mas passamos pensamentos um para o outro, e ocorreu-me passar este para ele: - nada de pensar em palacete melhor que o nosso!, enquanto pessoas, como nós, moram embaixo de pontes ou sobre calçadas. Meu filho descansa um pouco, logo após se arruma e vai para o estágio que está fazendo num empresa no centro da cidade. Eu penso que as férias de 10 dias que tirei estão chegando ao fim e, de súbito, ocorre-me a idéia de reler “O Fio da Navalha”... já perdi até a quantidade de vezes que reli esse romance. Ler é bom; reler, melhor ainda. Abraços procês. `tu de bão!

6 comentários:

  1. Olá JE!

    E então...
    Qto conteúdo de verdade hein!
    =)
    Por essas e por outras q convido vc
    a ir no blog FALANDO C/OS OLHOS.
    Copie o selinho HOMENS FABULOSOS E traga pra k.

    abç

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  2. É sempre bom ler e conhecer um pouco mais das pessoas. O que temos em nossa mente seria muito pouco se não fosse transportado para o papel / tela.
    Fica aqui o meu agradecimento pelos comentários e com certeza serei atenta e criteriosa lendo os seus textos.
    Um abraço.

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  3. Obrigado pela visita, meu camarada.
    Teu blog também é interessante!
    Abraços!

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  4. Quando criança, eu me contentava com a minha cabaninha do Gugu, achava lindas e agradabilíssimas as paisagens das minhas Minas Gerais e sonhava em ir ao centro da cidade sozinho, de ônibus. Mas aí eu conheci o mar, visitei o bairro das Mangabeiras e comprei um carro. Nada mais me parecia tão bom. Como diria um certo poeta, do qual não me lembro o nome: “Na favela, o povo era feliz, antes da chegada da televisão...”. Depois que conhecemos o bom, não nos contentamos com o não tão bom. Seu texto é muito bom. Faz perceber o tanto que o normal nos incomoda.

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  5. Antonio, querido!!
    Eu fico tão feliz quando recebo um carinho como o seu no meu blog, e quando venho retribuir, me deparo com coisas tão minhas, nossas.
    Muito bom seu texto, real como a nossa vida real mesmo, pois acho que assim tem que ser.
    Adoro palavras como as suas, fáceis de ler, acessiveis a todas as pessoas que possam adentrar aqui.
    Virei fã, acredite.
    Quanto ao fio da navalha, leia meu amigo.
    Uma dica: Eu li e fiquei profundamente triste por ter acabado de ler rs.
    Pois é lindoooooo demais, e uma lição de vida.
    Depois me conta tá?!

    Um abraço, e bem vindo aos meus amigos!!!

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  6. Muito bom tudo o que li por aqui. Voltarei sempre!

    Abraço!

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