quarta-feira, 12 de maio de 2010

Expurgo 20

Vamos, rápido, anda, que moleza é essa?, acho que você não bate bem das bolas. Sujeito esquisito! Cê né homem, não? Caramba!, pensei que você fosse normal, enganei-me redondamente, você é quadrado, ultrapassado, é lerdo, não presta pra nada. Mas é só você que tenho mesmo, tenho que lhe aturar, tenho que lhe carregar em meus ombros, ficar toda hora lhe dizendo que isso deve ou não deve ser feito, parece que quanto mais velho fica, mais burro você vai ficando. Vê se você se enxerga pelo menos uma vez na vida!, e não adianta vir pra cima de mim com cara de pobre coitado, que não sou de ter dó de ninguém. O pior é que você não se separa de mim, tem os mesmo olhos que os meus, fala pela minha boca, pensa pela minha cabeça, tem exatamente a mesma cara que a minha. Por que você não vai pra outro sítio, hein? Olha, cara, não vê que estou cansado de você, que já não suporto mais ver você a se queixar da sua gastrite, da sua diverticulite? Que culpa tenho eu de você estar mais magro que bacalhau em porta de venda? Quem mandou você não ter se cuidado? Desculpa de peidorreiro é barriga inchada, já dizia Jorge Luiz Borges e Padre Antonio Vieira. Mas você não entende de nada disso, seu saber é de porta de botequim, e foi lá que você começou a estragar a sua vida. Agora, é tarde. Uma batida de limão aqui, outra ali, uma fritura a mais, outra além mais... Quando se é jovem o corpo aguenta, mas tudo vai se acumulando até que o dia em que aparecem os primeiros fios de cabelos brancos, os seus passos passam a não ter a mesma pegada de antes e então começam a aparecer as azias, a fraqueza vai lhe minando até chegar ao cérebro, e, aí, meu chapa, não tem choro nem vela, é aguentar quieto. Eu disse: quieto. E não tem essa de levantar a cabeça, porque nem cabeça você tem mais, tem é cerebelo, seu cérebro já era. – Mas, puxa!
Que, puxa que nada! Quieto! Falou e fez muita bobagem, né?, agora aguenta. Você acha que as pessoas estão se lixando para o que você sente? Vá nessa, ninguém tá nem aí, e mais a mais, todo mundo tem problemas. Eu mesmo tou até o pescoço atolado de problemas, e o maior deles é ter que lhe aturar 24 horas por dia. Já pensou que peso eu carrego? Já pensou que merda de vida eu levo? É, cara, você é um tremendo estorvo em minha vida. Pensei em milhares de saídas, mas como me separar de você, se você não me deixa em paz, você não se desgruda de mim. Eu pensei em pintar-lhe os cabelos de acacju, mas de que me adiantaria se você tem a sina de usar até os meus cabelos? Já pensou? Pensou nada, você não pensa por mim, eu sou o pirata, você não passa de papagaio. Eu não sei o que seria de você se não fosse eu. Claro, você já teria morrido atropelado, você já estaria embaixo da terra, seria um prato e tanto para as minhocas e para os vermes. Mas lhe vendo assim cada vez mais magro, dá pra perceber claramente que nem pras minhocas e pros vermes você presta mais, tá puro osso. Agora, aguenta, porque eu já não tou mais aguentando mais.
E o foda de tudo isso é que não há saída, porque eu sou você e você, eu... não há como escapar... sou prisioneiro de mim mesmo, dividido ao meio, e esse meio é todo feito de merda.



3 comentários:

  1. ...êita!

    é duro quando temos que falar
    conosco em tom contundente!

    às vezes esta conversa acaba dando
    resultado...

    outras...


    obrigada pela visita e palavras
    carinhosas que não mereço...rsrs

    bj

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  2. Corpo cansado é sinal de uma vida bem vivida.

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  3. Antonio meu amigo,
    nunca esqueci as palavras de uma sábia professora que tive; são elas:
    "Sejam generosos com vocês mesmos, sempre."
    Esse é meu lema de vida.
    Fica mais fácil de carregar o peso do tempo!
    Grande abraço,
    Stael Guião

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