quarta-feira, 5 de maio de 2010

Expurgo 17

Palavras. Eu tenho uma, duas, três, tenho mil, milhões, não sei quantas. Sei que tenho... palavra que tenho! Acredite você ou não. Tenho virgulas e pontuações. Às vezes, não nego, tenho confusões. Faz parrrrrrrrrrrrrrte, como se diz em puro, sincero e belo paulistanês. Porreta ser nordestino! Num giriesco falar clandestino confesso que queria estar em Icó, conhecer Icó, principalmente, amar Icó. Mas como será Icó? E com isso termino sempre na mesma rua, andando pelos mesmos lugares, vendo sempre as mesmas pessoas, fazendo sempre as mesmas coisas. Algo me cheira mal. Saudades de Portugal? Mas eu nunca tive em terras lusas. Saudades de ter não ter saudades, de apenas viver o momento presente, livre do passado, livre de lembranças, liberto dos compromissos, preso a mim mesmo, estando totalmente a vontade com as minhas idéias que tentam me dizer alguma coisa que perco aqui, escapa-me ali, e que logo encontro lá na frente, ora na ribeira, ora na dianteira. Tenho pressa. Logo chega alguém, intromete-se no meu pensamento, prende-me em gaiolas de passarinho, lançam-se ao meu mar as suas redes e fico preso nelas feito peixe ou sou vitima de um tiro que atinge em cheio meu coração de poeta, de vagabundo e de sujeito trabalhador. Mas saiba que o passarinho, o peixe e o coração que aqui falo são tão somente pensamentos, nada mais que pensamento. Se alguém vê nisso palavras, não há problemas, são palavras que vão se encadeando, formando um anel que ao final das contas transformam-se em pensamentos. Pensamento não é matéria. Mas não existiria matéria se não houvesse pensamento. Matéria seria um troço, algo sem nome, um ruído, uma miragem, talvez. Cabeça cheia de grilos é castigo. Não existira gente se não houvesse pensamento. Seriamos bicho. Mas, bichos somos. Metade humano, metade bicho. Meio a meio. Pau a pau. Instinto e razão. E grilo. O problema é que inventaram reis, padres, pastores, políticos, cercas e, principalmente, inventaram o dinheiro e o poder. Nordestino fala “puder.... o puder”;. É, eu sou do Ricifi. Mas o ser humano tem sentimento, não é? Itaituba, é, Itaituba mora lá um tesouro. Itaituba tem encanto. Itaituba tem sinceridade. Lá tudo parece espontâneo, o sorriso espontâneo, o olhar espontâneo, o semblante espontâneo. Itaituba é colo. Taguatinga é meio tímida, elegantemente tímida, ousadamente tímida, discreta, menina, Taguatinga é jardim, cores, perfumes, um sorriso gostoso. Santos não conheço, mas quero bem, quero conhecer o seu falar pouco e dizer muito. Catanduva tem brilho nos olhos, tem brilho no riso, tem entrega de alma, ainda irei catar dessa uva. Como será Catanduva? Sei que também tem um jeito moreno, fraterno, atirado, ousado, sedento. Conheço pouco Catanduva. Preciso conhecer mais... ou não? Niterói pra mim é um enigma fluminense, mas pode tornar-se uma amizade permanente. Sei daquela história da ponte e tal. Pouco sei, mas saberei. Não sou muito novo, mas vou custar para morrer. E o Rio de Janeiro? O Rio é o Rio, só falta o rio. Mar. Cariocas e fluminenses, viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu. Essa é manjada. Rio de Janeiro, São Paulo, complicado falar, há tanto encanto e desencanto... mas fiquemos só no encanto. São Pedro da Aldeia tem relógio grande na praça central, tem gente que acerta na megasena, tem muito carinho escondido, tem vida interior. E Curitiba? Há asas tortas, mistérios, em uma cidade bem planejada, reta, transparente. Enigmas, que não sei. Juiz de Fora. Viva os cariocas de Juixx de Fora! Há alguém de cantar possante, que fala sério, que é sincero, que vê o idoso, sente pena, e da outra pena, faz o soneto, faz o poema. Falar de Bragança é aquela dança, é aquela mágica, é tango e brincadeira de roda, é ser ousado, é chorar sorrindo, é inquietude, é vida. Mas chegamos a Belém. Belém... Só a palavra, por si só, já é um poema: Belém. E um poema belo, além. Eis que surge Varginha. Não conheço Varginha e estou tão perto dela. Sei que há poesia por lá, daqui já sinto o perfume e sinto saudades, não tenho medo do passado e me dou bem com as lembranças e procuro algum sinal de carinho vindo de Varginha. Baixo Guandu, como será? Vejo uma certa inocência, algo de bem comportado, há sinais de paz em Baixo Guandu. É em Baixo Guandu que guardo os meus segredos de amor, meu corpo se estremece, suspira, a carne é fraca e a alma que há lá é grande, bonita, honesta e generosa, não merece que eu perca o meu juízo. Chegamos a Bauru. É inevitável não falarmos em sanduíches, é a primeira coisa que vem a mente. Esquecemos, porém, que há muita poesia escondida em Bauru. O sentimento explode, as lágrimas se juntam a sorrisos, há sempre uma pracinha com algum banco para a gente olhar para o céu de Bauru. De repente, olha eu lá em Parati. Lógico que fiquei meio que assanhado, tenho cá minhas fraquezas carnais, intelectuais e outras mais. Mas acabei mandando um beijo para ti de Parati, não foi? O problema é que além de não ser dado a viajar, falta-me grana e sobra-me uma preguiça que vou lhe contar! Mas Jequié está aí. A grande alma mora em Jequié, só quer paz, amizade sincera, não pede amor, talvez já o tenha encontrado, quer crescer interiormente, há sinais evidentes que há um incessante procurar o sentido da vida em Jequié. Jequié, como será? O que será? Talvez a resposta esteja lá. E onde estamos agora? Itumbiara, meu chapa!!! Lá há uma voz ma-ra-vi-lho-sa, há música desde que o dia começa, que avança pela noite e adentra a madrugada. Há uma estrela que canta. Itumbiara é música. Peguei o ônibus e fui direto para Barueri. Tempo quente. O verso forte, a prosa boa, a genialidade de um povo, o povo de Barueri. E cá estou em Paranaguá. Terra de gente forte, é o sul, há o toque estrangeiro, há o lado brejeiro, vejo o sol de Paranaguá com meus óculos escuros comprados em alguma banca de camelô de BH. Finalmente me deparo em Uberaba, sinto-me feito um boi zebu, sei que há poesia de todo jeito, um talento aqui, outro acolá. Mas, por hoje é só, fui a muitos lugares, descansar é preciso. Depois, recomeço a caminhada.

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