quarta-feira, 5 de maio de 2010

Expurgo 15

Isso mesmo: amei uma foto, fiquei apaixonado por ela, senti que ela era a minha namorada, que juntos cantávamos Beatles, Edu Lobo, Dolores Duran, Helloween; Zeca Padinho, não, pelo amor de Deus, prefiro Jamelão e Cartola. Gosto de Frevo, Blues e acho Jazz uma merda; quem não entendi de música é que se mete a ouvir Jazz. Até que quem toca saca, e saca bem, saca muito. Eu gosto de muita coisa, meu caro senhor e minha (já pensou se seu marido descobre?) nobre senhora. Eu gosto de ver a poeira levantar pelo ar, sei lá, isso me dá uma idéia de que o vento assumiu alguma cor, um amarronzado fininho. Não gosto de vento sem cor, ou melhor, gosto, mas sinto que o vento por ser tão bom e majestosamente útil, sem ele não sobreviveríamos, merecia ter cor. Tentei imaginar uma cor para o vento, mas acho que o vento é como a alma, não carece de cor, mas carece saber que estejamos conscientes que o vento por ser transparente é que nos deixa ver as cores. Burro , eu! Se o vento tivesse cor, não daria para ver a cor das árvores, dos rios, do céu, do mar, dos cabelos ondulados de Mirthes, as cores de todas as coisas perderiam a beleza das suas cores. Imagine que o vento tivesse a cor vermelha... o céu ficaria roxo. Se o vento tivesse cor, todas as cores perderiam suas cores reais. Burro, eu! As coisas são o que são porque são, não são por acaso, e acaso eu disse algo de errado? Perguntar nunca é demais. Há um constante indagar, a mente é que nem macaco: fica pulando de galho em galho. Mas ninguém tem nada a ver com o meu jeito de ser, eu não faço mal a ninguém, vivo do que tenho, não desejo nada além do que ter o direito de pensar e ter alguma coisa pra comer quando a fome aperta. Não sou exigente, fique claro. Materialmente, não sou exigente em nada. Mas tenho cá meus princípios morais, isso eu tenho. De algumas coisas, não abro mão nem que a vaca fique por aí a tossir. Já dei muitas trombadas, mas nunca prejudiquei ninguém conscientemente. Posso ter até dito coisas indevidas, mas as que eu ouvi, ouvi muito mais. Sempre fui de não falar muito. A minha linguagem é meio estranha para quem se acha normal. Eu posso estar falando de porta e pensando que o sujeito com quem falo é um cara de pau, que vive fechado, que não se abre pra ninguém, que sua chave está enferrujada junto com a sua tranca ou que o negócio dele é ficar esperando a hora certa para dar o golpe do baú. Acho meio complicado entender. Mas a vida me ensinou alguns truques. Sou feliz, sabia? Feliz porque aprendi a não dar valor ao que a maioria das pessoas vivem como loucas a procurar. Quero pouco, só o necessário. A diferença é que acho que meu necessário me leva a muito, faz com que a minha vida tenha sentido. Sou rico por dentro. Se algo de material aparecer que possa acrescentar um significado novo, conhecer alguma floresta, algum rio, uma cidade, comprar um livro que gostaria de ler, tudo bem. Caso não, foda-se. Aprendi a levar a vida na base da brincadeira. Adoro brincar, mas não acho graça nenhuma no Programa do Sô, no Programa da Bebe, dos Carretas e Plunetas, prefiro conversar do que ouvir piada; acho essa de ouvir piada é coisa sem graça, tão sem graça como aquele Programa do Bostão, aquelas novelas que mostram o Rio de Janeiro, em que cada personagem tá a procura projeção social; ambiente do Rio me parece muito mesquinho, tem o lance da Mangueira, Tom Jobim fumando charuto e tocando piano; em Minas também tá cheio disso, acho que a bananosa é geral. Pensa você que vou me apaixonar por uma loura, de belos bustos, verdes olhos e coxas grossas? Posso sentir algum momentâneo desejo. Momentâneo, eu disse. Mas, apaixonar? Sou lá algum trouxa. Também sei que ninguém vai se apaixonar por mim de graça. Ainda mais por mim que gosto de ficar quieto no meu canto. Mas Antonio de Albuquerque de Lins Damasceno do Rego de Almeida Soares acha que a loura está caída por ele. Antonio de Albuquerque de Lins Damasceno do Rego de Almeida Soares é um sujeito de posses. Você acha que a loura tá apaixonada por ele ou pelo bolso dele? Que me perdoem as louras, mas a morenice é necessária, as mulatas são imprescindíveis, as índias são o que há de melhor. Quer saber de uma coisa? Eu não acho nada. Acho que ela tem algo de cigana. Só isso. Gosto (essa de ficar dizendo toda hora "adoro" parece coisa do pessoal do "orgulho gay", eu, hein!) de brincar sim. É, mas quando falo sério, olha, é pra valer. Por isso, digo: - João Damasceno do Rego de Almeida Soares larga a mão de ser bobo, sô! De mais a mais, você não está com nada no balaio além de vento.

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