quarta-feira, 5 de maio de 2010

Expurgo 13

Vamos lá. Qual é o seu nome mesmo? Não quer dizer, pois bem. Não tem problema. Eu também não tenho nome. Nome até que tenho, mas já que você não quer dizer o seu, ficamos sem nome. Eu sou eu, você, você. O Brasil é um país tão misturado que antes eu achava feio botar nome estrangeiro nas pessoas. Achava até ridículo. Mudei de idéia. Hoje acho mais natural e lógico alguém se chamar Charles que Carlos; prefiro Mary que simplesmente Maria. Já não vejo nada demais alguém dizer que vai tomar um drink; ridículo é dizer vou tomar uma bebida. Acho que devemos aceitar a mistura. Nós não somos o limão, nem o açúcar e nem a água: somos a limonada. Isso aqui não é só casa de portugueses. Afinal, eu escrevo no Word, uso o mouse, passo meus e-mails, entro em chats, faço downloads, backups, adoro comida árabe, japonesa e por aí vai. História maluca aquela do cara que dizia que não tinha história, que não mantinha relações com ninguém, nunca tinha conversado com ninguém. Pô, cara, o cara vivia solitário, vendo as pessoas irem de um lado para o outro, conhecia todas as pessoas, as suas feições, hábitos, moradia e jamais dirigia uma palavra a ninguém. Esquisito... o sujeito! Eu ainda tou no início do livro, não sei como vai acabar a história dele. A gente diz cada coisa... pra quê dizer mais já que não sei como vai acabar a história, já que disse que estou no início do livro? Mas, eu sou assim mesmo. Liga, não. Os meus neurotransmissores já estão acostumados a entrar em parafuso. Sou psicanalista e mecânico nisso. Acostumei a lidar comigo mesmo. Estou descendo a montanha. Já estava na hora de tomar juízo. Acontece que por mais que eu procure descer a montanha devagar, fico doido para chegar sexta-feira, conto as horas, não vejo a hora, torço para que as horas passem bem depressa, para que eu fique temporariamente livre do batente e possa ficar dois dias sem ver ninguém do serviço. É uma glória. Nomes, Brasil, sujeito esquisito, montanhas, neurotransmissores... eu, hein!!! Poesia. Sim, vamos falar de poesia. Gosto de coisas que não dão dinheiro. E você? Poxa, até agora só eu quem falou! Isso não é justo, mas justiça seja feita, você é boa de ouvidos, tem ouvidos sensuais, ouvidos libidinosos, nunca dantes se viu ouvidos como o seus. Que ouvidos!!! Seus ouvidos deixam qualquer sujeito excitado, só de pensar neles a chama do desejo acende em mim. Quem lhe deu esses ouvidos? Justiça também seja feita, seus cotovelos também não deixam nada a desejar, estive reparando. Você tem os cotovelos mais lindos que já vi, qualquer rei ou majestade se renderia a eles. Aquilo era treta, viu?, alguém que inventou, nada disso existiu, e se existiu, não foi do jeito que disseram, remexi todos os meus guardados para ver se havia alguma veracidade no que disseram. Olha, tudo não passou de mentira inventada por uma mente perversa querendo se passar por lírios do campo. É flor do brejo. É luz apagada. É cruz. Era um sapo roncando na lagoa. Era bagaço de cana e de laranja numa fusão de visão transcontinental com algum compromisso ecológico, de modo inagricultável. Creio nisso. A terra ali não é fértil. Tudo teatro, papo de ONG. A poesia está em outro lugar. E que bem claro fique: eu não disse nada. Estou convicto que nada sou. Como posso dizer algo, se nada sou? Estou justificadamente fora dessa. Vai nessa...

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