quarta-feira, 5 de maio de 2010

Expurgo 12

Pensei em chorar. Chovia. Deixei a chuva chorar por mim. Eu tinha os olhos de céu e barbas de nuvens, imaginava que podia ser feliz, que um dia o sol voltaria trazendo rios de concretos por todos os lados, erguendo flores que subiam por elevadores, arbustos que pegavam ônibus, bichos que mascavam chicletes, a natureza inteira nos campos de futebol a cantar O Luar do Meu Sertão. Mas para quê ser tão desconexo nessa estrada reta, se a curva está longe e a dor é certa? Estou num beco sem saída, morando na rua da amargura, na avenida do medo, na esquina dos aflitos, enrolado até o pescoço, comprometido, trabalhando num hospício, compactuando migalhas por necessidade, a disfarçar que está tudo bem e meu maninho achando que pimenta nos olhos dos outros é colírio comprado em alguma Farmácia ordinária. Mas eu já comi comigo-ninguém-pode, e pude. Claro que fiquei com a boca daquele tamanho, passei um tempão na base do leite... mas PUDE com aquela planta tóxica, a comigo-ninguém-pode. Aguento firme, portanto. O problema é meu, o telefone é meu. Não ligo mais. Vou deixar o meu silêncio falar por mim. A dor passa. Quando não dá pra perdoar, o esquecimento é companheiro certo e é o mais certo a fazer. Como diria Espinosa: não chore, não se revolte: compreenda.

1 comentários:

  1. Gosto muito de ler e sempre vou grifando palavras, frases e parágrafos que me chamam atenção dentro de cada contexto e nesse momento as suas palavras “quando não dá pra perdoar, o esquecimento é companheiro certo e é o mais certo a fazer”; me fez meditar um pouco... Talvez quando a dor passar vou poder ser sincera comigo mesma e não vou precisar manipular minhas emoções.

    ResponderExcluir

Arquivo do blog