quarta-feira, 5 de maio de 2010

Expurgo 11

Parece que estive me procurando o tempo inteiro. Não sei onde estive. Desapareci do mapa. Pensei até em telefonar-me, passar-me um e-mail, coisas do gênero. Esquisito. Acho que fez um barulho dentro de mim, um sinal qualquer querendo dizer que eu não estou sentado em frente desse micro, essas mãos não são minhas, eu nunca vi ninguém, não sei o sobrenome de ninguém, nunca me vi, não me conheço, nunca me vi jantando na hora do almoço. Acho que não presto para nada. Que tal eu me jogar fora? Dizem que nada se perde, tudo se transforma... quem sabe assim, jogando-me fora, eu serviria para alguma coisa, teria mais valia? Mas o problema é que não me acho, desconheço o meu passado, meu presente é de grego e meu futuro está no passado que não entendi e meu passado está no meu presente, presente que ignoro completamente. Estou vazio de mim. Mas prossigo na minha procura, quero identificar-me, certificar-me que esses pés que estou agora vendo são meus realmente ou pertencem ao meu pescoço, que estão de alguma forma ligados ao fígado de outra pessoa que talvez seja de um sujeito que não vi, porque se nem a mim me vejo, como poderia ver que havia um sujeito sentado na mesa do bar, que não era bar, que usava bigodes, que não tinham capilaridade nenhuma? Acho que estava na penumbra de mim como um fantasma, virei gás, sumi, evaporei, fui pro céu, virei nuvem. Mas, como? Absurdo. E o meu pensamento? Eu tenho um invólucro. Não existe pensamento descorporificado, o pensamento necessita de carne, ossos, dentes, unhas, cabelos, neurotransmissores e não sei mais o quê pra poder pensar. Mas como posso pensar numa coisa dessas se nem pensamento eu tenho? Cadê meu invólucro? O problema é como lidar com esse bicho papão. Mas algo me diz que já fui feliz, já tive pensamentos felizes nos braços de Beatriz; tive sim, pensamentos de beijos que se materializaram, vibraram, viraram música dentro de mim. Sim, tive pensamentos felizes. Fui feliz ainda que por pouco tempo. Sim, fui feliz. Pena que nem pensamentos tenho mais, perdi-me de mim. Mas sou persistente, vou até o fim e, acho-me. Pelo menos, acho. Mas como posso achar alguma coisa? O que você acha? Eu acho que sou você. O problema é que não sei quem é você. É certo que não estou nem na terceira, nem na segunda e muito menos na primeira pessoa. Desgramaticalizei-me. Não me conjugo mais, perdi minhas pontuações. Mas fico feliz porque já tive pensamentos felizes. Quando eu me encontrar, e vou batalhar muito nesse sentido, vou fazer versos e escrever cartas para mim, inventar canções para mim, passar e-mails para mim, usar mais o telefone fixo para mim, fixar-me em mim, criar um blog só para mim, tudo para mim. Vou pedir ajuda a polícia para poder me localizar, vou me panfletar em cada esquina, em cada rua da cidade, vou deixar avisos em bares, cafés, em tudo enquanto há, vou até os jornais, revistas e aos canais de televisão, vou botar toda a mídia em ação. Alguém há de me achar, caso eu não me ache. Depois que eu me encontrar, aí sim... adeus solidão. Serei feliz, porque terei sempre pensamentos felizes. Pensamentos que beijam, deitam e rolam em alcovas de Beatrizes, Berenices e Mafaldas... não sei.

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