Antes do verão, após a primavera, com a chegada da lua cheia, aconteceu um incidente geográfico nos quadris de Gertrudes, que mal tinha saído do salão de beleza de Eleuza, cujo nome do salão era Salão de Beleuza. Eleuza, sempre criativa, a menina! Gostava de andar por esses trechos e sítios, cantar canções antigas e relembrar as manhãs de carnaval em que ficávamos deitados na relva branca nos deliciando com a neve de trovoadas que encharcavam seus olhos castanhos de encantos tamanhos com uma luminosidade opaca das pedras que o pessoal costumava chamar de canga. Não sei o porquê, e nem haveria motivo de saber, já que a poesia andava longe dos meus dedos a procura de outros dedos, dedos mais sensíveis, talvez, embora eu tenha cá comigo que nem sempre foi assim, entendíamos muito bem, havia uma certa camaradagem e espírito de fraternidade que fazia com que um não quisesse ver o outro nem que a vaca ficasse com bronquite aguda e não parasse mais de tossir muuuuuuuuuuuu. Nunca gostei de gatos. Sei lá, e pra lhe falar a verdade, nem de cachorro gosto mais; já gostei, não nego, mas isso era quando eu era criança. As idéias me vinham à mente de modo generoso e abundante, enquanto eu ficava vadiando na Bahia, estando em plena Minas Gerais. Gostava de ir a Praça Castro Alves, ir na parte velha e na parte nova de Salvador, o Elevador Lacerda me levava onde eu quisesse ir com a ajuda do meu bom e velho vulcabrás. Tempos bons os tempos em que me abaianei. Eu só não gostava quando ia ao Pelourinho, aquilo ali me fazia lembrar de muita maldade praticada no passado; passado pesado aquele! Mas havia o Farol da Barra, a praia de Amaralina onde costumava me banhar e também tinha as baianas da Baixa do Sapateiro, os acarajés. Não sei por que baiano tem de falar jé, xé, ixi. Prefiro uma Bahia sem Axé Music. O ixi, tudo bem. Estou no Paraná, mudei de rumo, já vejo Curitiba, sinto aquele frio todo, aquela cidade toda arrumadinha, acho aquilo tudo muito sensato, organizado, o centro da cidade cheio de lâmpadas, recordo-me de um relógio imenso que vi num jardim, fui também num lugar cujo nome não recordo agora, mas que tinha a ver com vinho, vinho de não sei o quê. É, do Paraná, não tenho muito o que contar, fiquei lá somente uns três dias no máximo. Mas a viagem foi bonita, via-se muitos pinheirais. Ah, esqueci! Eu vi as cachoeiras da Foz do Iguaçu. Parei por lá, coisa dumas 3 horas. Nossa, que legal. Visão e tanto! Lembro-me da ponte que a gente passava para ter uma visão melhor, sai de lá meio molhado, as águas das cachoeiras batiam n`agente, dava uma sensação gostosa. Tinha lá também uns macaquinhos que ficavam soltos no parque. Lembro-me de ter visto papagaios também por lá. Esquisito, não sei se era artesanato de madeira ou era papagaios de verdade. Bom, deixa pra lá. E São Paulo? Só vi São Paulo de longe quando fui pro Paraná Que loucura achei São Paulo. A cidade já é um país, sei não. Lembro-me do tamanho da cidade, ficou retido nas minhas retinas devidamente pintadas de acaju, lembro-me também do rio Tietê. Sujo. Fizeram sujeira com o rio. O rio não é sujo, nós é que somos. Eu não perco mesmo essa minha mania de quer dar uma de moralista. Como tá na moda ser ecólogo, devo prestar pra alguma coisa. E o Rio de Janeiro? Dois dias no Rio. Achei o centro do Rio bonito, conheci a praia do Flamengo, vi o Pão de Açúcar. Só e só isso. Mas sou viajado, sô! Conheço o exterior. Já fui ao Paraguai, passei pela ponte da amizade, vi camelô mais que tudo, barracas, lojas vendendo gravador de fita, calculadora, um monte de coisas. Estiquei até uma cidade argentina, acho que o nome dela é Rosário, comprei uma blusa de lã lá. Que tal? Hã? Brasília, nunca fui. Os políticos fazem com que poucas pessoas se interessem por Brasília e, no entanto, é a única cidade do mundo que tem uma arquitetura tipicamente sua. Única. Portanto, não conhecendo Brasília, nunca fui a Goiás, Mato Grosso... e meu grande sonho mesmo era conhecer a selva amazônica. Gosto de árvores. Eu queria ver a selva, não o rio. Acho que sou um ser mais vegetal que H2O. Enquanto isso, Gertrudes deve estar aprendendo a falar alemão, Eleuza deve estar preparando nhoque para o jantar e eu vou ler Drummond, que disse que conhecia o mundo e mal saia da rua onde morava. E olhe que com esse lance da internet, ficou ainda mais fácil. Puxa, eu queria falar de Espinosa!... meu tempo esgotou. Fica pra outra hora. Aqui chove pra chuchu.

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