terça-feira, 4 de maio de 2010

Expurgo 8

Chega de esperar. Cansei. É por isso que não me canso. Avanço. Procuro outros sonhares, outros lugares, meu mundo no mundo que você acha que é só seu, não pertence a ninguém, nem a si próprio pertence o mundo, é do mundo, é mundo de todo mundo. Seco de saudades. Mas o que é a saudade senão saudade? Tenho saudades, sou saudade, dou adeus a saudade antes que a saudade me dê adeus. A saudade é portuguesa por excelência. Há tanto o que dizer que já nem sei por onde começar. Talvez comece pela história dos três porquinhos. Mas minha barba por fazer fica por fazer até a hora de fazer a barba. Fazer barba... como se fosse possível! Hum... Alguém já viu alguém fazendo cabelo, fazendo unhas, fazendo coxas? Fazer dentadura... até que vá lá... mas fazer barba? Detesto me barbear e não gosto de me ver barbudo. Acho que só gosto de escrever. Nem me fascina mais a cor das esmeraldas, prefiro ver saltar no papel uma letra que vai puxando outra letra até formar um pensamento inteiro. Mas como são lindas as esmeraldas... aquele verde, a pedra verde. Como é estranho o pensamento quando não estou escrevendo? Pensamento escrito pula que nem cabrito e se escuta aquele “mééééééé”, pensamento parado pula que nem macaco de galho em galho e não passa disso. Pensamento. Pensar sem sentir, pensar planejado, suado, desesperado, preso, fixo, feito de plástico, mas tá aí. Não há como fugir. O lobo mau acaba sempre aparecendo no meio da história para engolir a vovó. Vovó conhece a história do lobo mau, não há como fugir, está aí, feita de plástico, fixa, presa, desesperada, suada, planejada, a pensar sem sentir, pensamento macaqueando de galho em galho ou pulando que nem cabrito. Mas estou escrevendo, achando estranho a pedra verde, a esmeralda, achando-a linda assim inteira no meu pensamento puxado por letras que se saltam no papel mais fascinantes que a cor das esmeraldas, porque eu gosto de escrever, não gosto de me ver barbudo, detesto fazer barba, deixo a barba por fazer até a hora de fazê-la. Em que pese o imponderável que há nesse lance de fazer barba, cabelo, unha e coxas e uma certeza certa que não há nada mal em se fazer uma bela de uma perereca bucal, a dentadura nossa de cada dia, os três porquinhos me aparecem outra vez na história, sinal que tenho tanto a dizer que nem sei por onde começar, e caminho para trás, o bico do sapato passa a ser o salto, minha face pula pra nuca. Falar de saudade é falar de Portugal, a saudade é portuguesa por excelência, mas dou adeus a saudade antes que ela me dê. Sou saudade, tenho saudades. Seco de saudades. Mas o que é saudade senão saudade? É do mundo, pertence ao mundo, não pertence a ninguém, é mundo, é de todo mundo, meu mundo no mundo que é de todo mundo. Procuro outros lugares. Avanço. É por isso que não me canso. Cansei. Chega de esperar.

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